Clássico de Thomas Mann ganha nova edição pela Penguin e amplia o acesso a um dos grandes romances do século XX

 NO PRELO 
08/01/2026  
Publicado originalmente em 1924, A montanha mágica volta às livrarias em nova edição da Penguin, reforçando o acesso a uma das obras fundamentais da literatura ocidental. Considerado a obra-prima de Thomas Mann, o romance acompanha os sete anos em que o jovem engenheiro Hans Castorp permanece em um sanatório nos Alpes suíços — um espaço aparentemente isolado que se transforma em laboratório de ideias, debates e tensões que antecipam o colapso da Europa às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Ao longo da narrativa, temas como ciência, religião, humanismo, política e sociedade atravessam discussões intensas entre personagens que representam visões de mundo opostas. O sanatório torna-se um microcosmo onde se condensam as inquietações intelectuais de uma época e onde o protagonista é forçado a construir sua própria compreensão da existência.

A edição traz a consagrada tradução de Herbert Caro — referência histórica no Brasil — e posfácio de Marcus Vinicius Mazzari, um dos principais especialistas em Thomas Mann no país. O lançamento da Penguin não apenas reafirma a importância do romance, como também contribui para torná-lo mais acessível a novas gerações de leitores, mantendo a fluência e a precisão que fizeram dessa versão um clássico em língua portuguesa.

Mais do que um romance sobre doença e confinamento, A montanha mágica permanece como um dos grandes livros de ideias da modernidade — um texto que segue convidando o leitor a entrar num território em que a literatura e o pensamento caminham juntos.

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 1.160


Entre luto, memória e humor, romance de estreia de Julieta Correa transforma a experiência da perda em literatura

 NO PRELO 
23/12/2025  

Publicado originalmente na Argentina em 2024, Por que são tão lindos os cavalos? marca a estreia literária de Julieta Correa e nasce no encontro delicado entre diário e romance, fato médico e invenção literária, ausência e permanência. O livro constrói sua narrativa a partir do diálogo entre as anotações da autora e os diários de sua mãe, Sari — mulher de letras, atravessada por uma doença sem nome que vai apagando, pouco a pouco, suas faculdades, sua voz e sua presença cotidiana.

Enquanto acompanha o avanço da enfermidade, a filha registra também o peso da pandemia, do confinamento, do trabalho e dos silêncios que passam a ocupar o lugar das palavras. O que se forma diante do leitor é um livro sem pressa e sem plano aparente, que vai tomando corpo à medida que avança, entre crônicas da vida de bairro, fragmentos íntimos e um “léxico familiar” que tenta preservar aquilo que insiste em desaparecer.
Aos poucos, a doença deixa de ser apenas apagamento e passa a funcionar também como revelação. Revela a dimensão humana de quem sofre e, no caso de Sari, expõe uma lucidez recorrente em seus diários: a percepção da fragilidade da experiência humana, na origem tanto de sua tragédia quanto de sua beleza. Em Por que são tão lindos os cavalos?, Julieta Correa transforma o luto em linguagem — e a memória, em literatura.

Editora 34
208 páginas

No prelo: Luanda, Lisboa, Paraíso — Romance vencedor do Prêmio Oceanos

 DIVULGAÇÃO 
06/12/2025  

Nos anos 1970, em Luanda, nasce Aquiles — um menino marcado desde o primeiro suspiro. Complicações no parto deixam no corpo uma má-formação que moldará todo o seu destino, inclusive o nome que carrega. A única esperança de cura está em Portugal, numa cirurgia que precisa acontecer antes de seus quinze anos.

À medida que o aniversário se aproxima, Aquiles e o pai, Cartola, embarcam rumo a Lisboa acreditando que a estadia será breve e que, por virem de Angola, seriam recebidos como cidadãos portugueses. O que encontram, porém, é um país que ainda olha para a antiga colônia com distância e preconceito. A viagem provisória se prolonga, e o retorno para casa começa a parecer cada vez mais improvável.

Em Luanda; Lisboa; Paraíso — romance que sucede o celebrado Esse cabelo — Djaimilia Pereira de Almeida reafirma sua força como uma das vozes mais singulares da literatura lusófona. Com delicadeza e precisão, ela narra a experiência da diáspora, a relação entre pai e filho e a persistência humana em buscar afeto mesmo quando tudo à volta aponta para o desamparo.


Editora Todavia
184 páginas

Sim, ainda tem gente que escreve

 OPINIÂO 
06/12/2025  | Tiago Juliani

Tenho pensado nisso com um certo incômodo, e talvez você também já tenha sentido algo parecido: desde que a inteligência artificial começou a ocupar todos os cantos, escrever ficou meio desconfortável. Digo isso especialmente porque eu não sou escritor. Não no sentido oficial da palavra. E, mesmo assim, sempre que publico alguma coisa, me dá a impressão de que existe um olhar desconfiado ali, espiando por trás da tela: “isso foi você mesmo que escreveu?”.

A IA embaralhou completamente essa percepção. De repente, qualquer texto que soe um pouco polido, um pouco alinhado demais, já levanta suspeita. E quando o leitor acha que foi uma máquina que escreveu, a leitura perde graça. É como se a escrita tivesse virado um produto padronizado — e o interesse evapora na mesma hora (olha o travessão suspeito aí! rs).

Só que, ao mesmo tempo, tem acontecido algo curioso. Muita gente — eu incluso — começou a procurar textos que carreguem sinais de vida. Textos que tenham hesitação, respiração, tropeço, alguma marca humana. E isso acaba nos empurrando de volta para quem realmente tem ofício: escritores, jornalistas, pesquisadores, cronistas… pessoas que passam anos afiando a própria voz. No meio desse mar de frases automáticas, a escrita que vem de alguém de verdade começou a aparecer mais.

A IA, sem querer, criou uma espécie de divisão. Antes tudo se misturava: escritores e pessoas que simplesmente escreviam. Agora dá pra perceber a diferença com mais facilidade. Não é só a qualidade — é o jeito como o texto parece ter sido vivido antes de ser escrito. A máquina não vive nada. Ela só produz. E talvez seja por isso que, quando lemos algo que claramente foi escrito por alguém, sentimos imediatamente.

Eu, que não sou escritor, sinto ainda mais essa necessidade de sinalizar: “olha, fui eu que escrevi, mesmo que com falhas”. É quase uma reivindicação de presença. Um jeito de dizer que existe uma pessoa por trás do texto, não um sistema de palavras prontas.

E aí vem a parte interessante: quanto mais a IA escreve, mais a gente procura quem realmente escreve.

Talvez isso seja até um benefício inesperado. A literatura, a crônica, o ensaio, tudo que envolve linguagem pensada com cuidado, acaba ganhando um novo brilho. Porque agora, mais do que nunca, queremos ler quem arrisca uma voz — não quem aperta um botão.


No prelo: Correspondência inédita revela os bastidores do Boom latino-americano

 DIVULGAÇÂO 
09/11/2025

Entre os anos 1950 e 1970, a literatura latino-americana passou de periferia a centro do mapa mundial. Foi o período em que Cortázar, Fuentes, García Márquez e Vargas Llosa se tornaram nomes incontornáveis — não apenas por seus livros, mas pela energia intelectual e política que os aproximou. Agora, As cartas do Boom reúne a correspondência trocada pelo quarteto e oferece uma chave rara para observar esse processo por dentro.
Longe da versão mitificada de “explosão espontânea de talentos”, as cartas revelam uma constelação movida por afinidades estéticas, ambições, tensões ideológicas e cumplicidade afetiva. Há bastidores de criação, dilemas editoriais, debates sobre golpes militares, repercussões do impacto de Cem anos de solidão, projetos de férias compartilhados, e também fraturas — solidariedade e conflito na mesma mesa.

Mais do que registro biográfico, As cartas do Boom permite reconstruir a pré-história e a engrenagem íntima de um dos fenômenos literários mais decisivos do século XX. Um acervo epistolar que ilumina não só como esses autores escreveram obras que mudaram o curso da literatura, mas também como imaginaram o papel do escritor latino-americano diante de um mundo em convulsão permanente.


Editora Record
590 páginas

No prelo: Macbeth ganha nova tradução pela Penguin e reafirma seu lugar como drama definitivo sobre ambição e poder

 DIVULGAÇÃO 
07/11/2025

Um trio de bruxas, uma profecia e o início de uma espiral de violência que atravessou séculos. Macbeth, peça central da dramaturgia de William Shakespeare, retorna agora em edição da Penguin Companhia — e segue fascinando leitores por suas camadas de perversão, culpa e delírio político.
A trama começa quando Macbeth e Banquo, generais do exército escocês, são abordados por três bruxas que anunciam o futuro: Macbeth será rei. Aquilo que parece uma visão distante desencadeia uma cadeia de assassinatos, paranoia e usurpação, transformando o campo de batalha em palco íntimo de ambições e neuroses.

Nesta edição, a peça ganha fluente tradução de Lawrence Flores Pereira, além de uma introdução de Carol Rutter que recoloca Macbeth em seu contexto histórico e teatral, e um posfácio de Régis Augustus Bars Closel dedicado a discutir a autoria do texto.

Séculos após sua estreia, Macbeth permanece um dos pontos mais altos da literatura ocidental — muito por conta da figura que continua a magnetizar intérpretes e leitores: Lady Macbeth, talvez a mais complexa e inesquecível mulher criada por Shakespeare.


Penguin-Companhia
192 páginas


No prelo: Barão decadente retorna à cidade natal em alegoria apocalíptica do Nobel de Literatura

 DIVULGAÇÃO 
06/11/2025

Publicada em 2016 e apontada como o fecho de um ciclo criado em Sátántangó, O retorno do Barão de Wenckheim chega ao Brasil como o romance que consagra o autor húngaro ao seu delírio final: uma parábola feroz sobre ilusões políticas, colapso social e o esgotamento de qualquer promessa de redenção.
Depois de décadas na Argentina e afundado em dívidas de jogo, o aristocrata Béla Wenckheim retorna à sua remota cidade natal, uma comunidade coberta de poeira e ressentimentos. Os habitantes, entregues a delírios messiânicos, projetam nele a figura de um salvador. Mas o que volta é apenas um homem cansado, cujo único desejo é reencontrar o amor da juventude. 

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“O que pode acontecer quando a linguagem é levada além das regras que ela própria estabelece.” (Colm Tóibin) 


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Entre vigaristas de ocasião, uma gangue de motociclistas e um professor recluso que observa o mundo ruir com terror e ironia, o romance monta uma polifonia vertiginosa — riso, devastação e grotesco em proporções literárias raras. 

O júri do Nobel definiu a obra como “visionária e arrebatadora”, capaz de reafirmar “o poder da arte” mesmo em meio ao apocalipse. Susan Sontag já havia dito: o autor é “o mestre húngaro do apocalipse”. Aqui, ele entrega seu testamento ficcional.


Companhia das Letras
512 páginas

No prelo: Ana Terra ganha edição especial e reafirma a força de uma das personagens mais marcantes de Erico Verissimo

 DIVULGAÇÃO 
03/11/2025 
RES
Segunda metade do século XVIII, interior do Rio Grande do Sul. Ana, única filha mulher da família Terra, conhece desde cedo uma vida de trabalho duro: lida com colheita, tarefas domésticas e a ameaça permanente de invasões às terras. Nada parece lhe dar margem para imaginar outro destino — até que encontra, ferido à beira de um riacho, o misterioso Pedro Missioneiro, mestiço criado em uma missão jesuítica. Esse encontro acende a fagulha que transformará por completo sua trajetória.
Personagem inesquecível de O tempo e o vento, Ana Terra retorna agora em edição especial. O texto, lançado originalmente dentro de O continente (1949) e depois publicado como volume independente em 1970, atravessou décadas sem perder potência — mais do que um capítulo da formação do Brasil, é um retrato de resistência feminina num território marcado por guerras, disputas de poder e fronteiras ainda por se definir.

No posfácio inédito desta edição, a romancista Morgana Kretzmann destaca Ana como símbolo para mulheres que precisam romper convenções e sobreviver num mundo comandado por homens e seus conflitos. Não apenas personagem histórica, mas presença viva no imaginário literário: uma voz de coragem, esperança e liberdade que continua a ecoar e a conquistar novas gerações de leitores.


Companhia das Letras
168 páginas

No prelo: Bernardine Evaristo revisita a história da escravidão em uma poderosa sátira sobre raça e poder

 DIVULGAÇÃO 
02/11/2025 

E se a história tivesse sido escrita ao contrário? Em Raízes loiras, que chega agora ao Brasil, Bernardine Evaristo ― vencedora do Booker Prize por Garota, mulher, outras ― leva essa pergunta às últimas consequências. Publicado originalmente em 2008, o romance imagina um mundo em que a África se tornou o continente dominante do planeta e são os povos europeus que foram submetidos, traficados e escravizados.

A trama acompanha Doris Scagglethorpe, uma menina inglesa de dez anos que vive com a família na zona rural até ser sequestrada e levada por navio à Grande Ambossa. Lá, perde o próprio nome ― rebatizada como Omorenomwara ― e passa a viver sob violência constante, reduzida a propriedade. Enquanto enfrenta abusos físicos, morais e psicológicos, ela alimenta um único desejo: escapar e voltar para casa.


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“Uma história extremamente inventiva que provoca debates importantes, desafiando percepções fundamentais sobre raça, cultura e história.” (Independent) 


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Com ironia, precisão formal e desconforto calculado, Evaristo desmonta hierarquias raciais, expõe o absurdo das justificativas históricas e nos força a olhar de outro ângulo para o que naturalizamos. Raízes loiras não é apenas uma ficção criativa: é um espelho invertido do horror colonial, que devolve ao leitor o estranhamento capaz de revelar a violência que estruturou o mundo que herdamos.


Companhia das Letras
312 páginas

De volta ao bate-papo sobre livros, a escrita e seus demônios inquietantes

Inaugurando este espaço para retomar uma conversa antiga: aquela troca sobre livros, leituras e descobertas que começou no Instagram e que sempre rendia os melhores comentários, listas e indicações espontâneas. Aqui, sigo o mesmo espírito, só que com mais fôlego: espaço para ensaios, resenhas, provocações e, claro, para falar dos principais lançamentos literários, que sempre foram o assunto que mais movimentava quem me acompanhava.

Vivemos espremidos entre urgências, telas e distrações que se multiplicam. O tempo encolhe e a sensação é de que a leitura precisa disputar espaço com tudo (e quase sempre perde). O blog nasce para remar na contramão: desacelerar um pouco, criar uma zona livre de ruído, olhar a literatura com atenção filosófica e, ao mesmo tempo, pessoal.

A ideia não é apenas comentar livros. É tentar entender o que eles dizem sobre nós e como nos atravessam. É continuar, em outro formato, a mesma conversa que começou há muito tempo, e que nunca terminou de verdade.

Seja bem-vindo(a) de volta.

Tiago Juliani